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ArlindovskyInformação17/10/2026
Informação

A falta de professores vai piorar. Os números não mentem, embora haja quem prefira não os ler

Resumo Radar

Há uma velha especialidade na política educativa portuguesa Quando falta alguma coisa, começa-se por negar a dimensão do problema, passa-se depois à fase de anunciar medidas extraordinárias e termina-se, invariavelmente, com uma conferência de imprensa a explicar que os indicadores estão a melhorar Entretanto, nas escolas, há alunos sem aulas, horários por preencher e direções obrigadas a fazer malabarismos para garantir aquilo que deveria ser o mínimo olímpico de qualquer sistema educativo: um

Há uma velha especialidade na política educativa portuguesa. Quando falta alguma coisa, começa-se por negar a dimensão do problema, passa-se depois à fase de anunciar medidas extraordinárias e termina-se, invariavelmente, com uma conferência de imprensa a explicar que os indicadores estão a melhorar. Entretanto, nas escolas, há alunos sem aulas, horários por preencher e direções obrigadas a fazer malabarismos para garantir aquilo que deveria ser o mínimo olímpico de qualquer sistema educativo: um professor para ensinar.

O problema é que a falta de professores não se resolve com comunicados, nem com a descoberta tardia de que os professores envelhecem, se reformam e, por uma dessas imperdoáveis particularidades da condição humana, não são substituídos automaticamente.

E os números, esses inconvenientes que insistem em estragar as narrativas oficiais, começam a desenhar um futuro que deveria preocupar muito mais do que preocupa.

O Estudo de Diagnóstico de Necessidades Docentes de 2025 a 2034, elaborado pela DGEEC em colaboração com investigadores da Nova SBE, apresenta uma projeção suficientemente expressiva para dispensar grandes exercícios de imaginação. Dos cerca de 122 mil docentes em funções no ano letivo de 2024/2025, apenas aproximadamente 76 mil deverão permanecer no sistema até 2034/2035. Estamos a falar de uma redução de cerca de 46 mil professores em atividade, equivalente a quase 38% do universo atual. Para assegurar a renovação do corpo docente, o estudo aponta para a necessidade de recrutar aproximadamente 38 mil novos professores até 2034/2035, ou seja, uma média de 3.800 por ano.

Não se trata de uma previsão feita num café, entre dois expressos e uma opinião sobre o estado da Educação. É um exercício de projeção assente em dados administrativos, demográficos e no recenseamento docente. Não é uma profecia infalível, mas é um aviso suficientemente sério para que ninguém possa alegar que não foi informado.

O Conselho Nacional de Educação chamou a atenção para estes números em outubro de 2025. E a Comissão Europeia, no seu relatório sobre Portugal de junho de 2026, voltou a assinalar a dimensão do problema, referindo que, no início do ano letivo de 2025/2026, quase oito em cada dez escolas públicas reportavam falta de pelo menos um professor. O problema, portanto, não é uma invenção das direções escolares, uma fantasia sindical ou um instrumento de arremesso político. É uma realidade reconhecida por instituições nacionais e europeias.

Mas há uma pergunta ainda mais incómoda. Se precisamos de milhares de novos professores todos os anos, quantos estamos efetivamente a preparar para entrar na profissão?

É aqui que a conversa começa a ficar menos confortável.

Em 2025, na área de Educação e Formação de Professores e Ciências da Educação, o concurso nacional de acesso ao ensino superior registou 1.694 vagas iniciais. No final da terceira fase, contabilizavam-se 1.610 estudantes colocados nessa área, correspondendo a uma ocupação de 95% das vagas. Os números são oficiais, publicados pela Direção-Geral do Ensino Superior.

Convém não misturar alhos com bugalhos: esta categoria abrange diferentes cursos, não apenas os que conduzem diretamente à docência, e os estudantes colocados não são necessariamente futuros professores que entrarão nas escolas. Ainda terão de concluir a formação adequada, obter a habilitação profissional e, naturalmente, decidir exercer a profissão.

Em 2026, o Governo anunciou um aumento de 12% das vagas nas licenciaturas em Educação Básica, passando a existir 1.344 lugares no concurso nacional de acesso, mais 147 do que no ano anterior. A medida merece ser registada. O problema é que aumentar vagas não equivale a aumentar, na mesma proporção, o número de professores efetivamente disponíveis para as escolas.

Uma vaga não é um aluno. Um aluno inscrito não é um diplomado. Um diplomado não é necessariamente um professor recrutado. E um professor recrutado para determinada região ou grupo de recrutamento não resolve automaticamente a falta de docentes noutra região ou disciplina.

Parece elementar, mas, na gestão da Educação, a diferença entre aquilo que se anuncia e aquilo que efetivamente chega às escolas tem sido, por vezes, convenientemente esquecida.

A Comissão Europeia, no relatório de junho de 2026, apontou para um desfasamento particularmente preocupante: cerca de 38 mil novos docentes necessários até 2034, face a aproximadamente 20 mil diplomados que se estima poderem entrar na profissão nesse horizonte. Se estes valores se concretizarem, teremos uma diferença potencial de 18 mil professores entre as necessidades projetadas e as entradas estimadas.

Façamos as contas, sem calculadora ministerial. Trinta e oito mil necessidades. Vinte mil entradas estimadas. Dezoito mil de diferença. E isto antes de começarmos a discutir a distribuição por disciplinas, regiões e níveis de ensino, bem como a eventual saída de docentes antes da idade da reforma.

A projeção não significa que o sistema vá necessariamente perder exatamente 18 mil professores por preencher. As estimativas dependem dos pressupostos adotados, das medidas implementadas, da evolução demográfica e da capacidade de atrair e reter profissionais. Mas significa que existe um desfasamento potencial de dimensão suficiente para exigir uma resposta estrutural, e não apenas mais uma operação de emergência.

E há uma ironia adicional. O número total de alunos poderá diminuir moderadamente na próxima década. Será, por isso, tentador concluir que a redução da população escolar resolverá a falta de professores. Só que a demografia não distribui crianças e professores com a generosidade de um algoritmo perfeito. Há regiões onde a população escolar diminui e outras onde cresce ou se concentra. Há disciplinas com escassez persistente. Há escolas que precisam de professores de Matemática, Física e Química ou Informática, enquanto noutras áreas o problema pode assumir contornos diferentes.

A necessidade de docentes não resulta apenas do número de alunos. Depende também da dimensão das turmas, dos horários, das políticas de apoio, da organização curricular e da distribuição territorial da população. É por isso que a previsão de uma diminuição global do número de crianças não invalida os alertas sobre a falta de professores.

Entretanto, há outra variável que merece atenção. A atratividade da profissão.

Durante anos, habituámo-nos a ouvir que ser professor era uma vocação. Como se a vocação pagasse a renda, suportasse as despesas de deslocação ou compensasse a instabilidade de quem passa anos a saltar de escola em escola. A vocação é uma qualidade desejável. Não é um regime remuneratório, não é um contrato de arrendamento e não substitui a estabilidade profissional.

Quando os salários não acompanham o custo de vida, quando a habitação nas zonas de maior carência se torna incomportável e quando a colocação obriga a reorganizar a vida pessoal e familiar, não basta apelar ao amor à profissão. O amor é uma excelente coisa, mas tem limites quando chega a hora de pagar as contas.

Depois, existe o problema do tempo. Formar professores não se faz por despacho, nem por decreto de urgência. As licenciaturas e os mestrados exigem anos de formação. Mesmo quando se aumentam as vagas hoje, os efeitos na disponibilidade de docentes só chegam mais tarde. E, se entretanto uma parte dos diplomados optar por outras profissões, o investimento na formação não se traduz integralmente em novos professores nas escolas.

A urgência é, por isso, dupla. É necessário responder às carências imediatas e, simultaneamente, garantir que o sistema terá profissionais suficientes nos próximos anos. Uma coisa não substitui a outra.

O Governo tem anunciado medidas de reforço da formação inicial, alargamento de vias de acesso à profissão, incentivos à mobilidade e mecanismos de profissionalização em serviço. Em setembro de 2026, anunciou a contratualização de 1.036 vagas adicionais em cursos de profissionalização destinados a docentes com habilitação própria, das quais cerca de 80% estavam preenchidas à data do anúncio. É uma medida que pode contribuir para qualificar profissionais já a exercer funções. Mas importa não confundir a profissionalização de quem já está nas escolas com a entrada de novos professores no sistema: são contributos diferentes para necessidades diferentes.

Também foram anunciadas alterações aos procedimentos de recrutamento, incluindo um novo concurso em contínuo a partir de 2027/2028. Poderá ser útil para responder com maior rapidez às necessidades que vão surgindo. Contudo, um procedimento mais rápido não cria professores onde eles não existem. Pode melhorar a correspondência entre oferta e procura, mas não substitui a necessidade de formar, atrair e reter profissionais.

E chegamos ao ponto essencial. A falta de professores não é apenas um problema de recrutamento. É um problema de planeamento, de formação, de condições de trabalho, de distribuição territorial e de valorização da profissão.

Se o país necessita, em média, de 3.800 novos docentes por ano e as projeções apontam para entradas insuficientes, não basta anunciar mais vagas nas instituições de ensino superior. É preciso acompanhar quantos estudantes entram, quantos concluem os cursos, quantos obtêm habilitação profissional e quantos chegam efetivamente às escolas públicas. É preciso cruzar esses números com as aposentações previstas por grupo de recrutamento e por região. E é preciso publicar, com regularidade, os resultados dessa comparação.

Sem essa informação, continuaremos a discutir a falta de professores como quem discute o tempo: todos sabem que está mau, todos têm uma opinião e ninguém parece responsável por levar o guarda-chuva.

As direções escolares conhecem bem a distância entre os números apresentados numa conferência de imprensa e a realidade de um horário que permanece por preencher. Conhecem o esforço de reorganizar turmas, ajustar horários e procurar soluções sem comprometer o funcionamento da escola. E sabem que um professor que chega em novembro não devolve aos alunos as aulas que perderam em setembro e outubro.

A escassez também não se mede apenas pelo número de horários vazios num determinado dia. Mede-se pelas aulas que não foram dadas, pela instabilidade das equipas, pela sobrecarga dos docentes que ficam e pela dificuldade em assegurar continuidade pedagógica. Há custos que não aparecem imediatamente nas estatísticas, mas que se acumulam na aprendizagem dos alunos e no funcionamento das escolas.

O futuro não está escrito. As projeções podem ser alteradas por políticas eficazes, melhores condições de trabalho, maior estabilidade profissional e uma formação inicial capaz de responder às necessidades reais do sistema. Mas não se alteram por decreto da vontade, nem por uma conferência de imprensa bem conseguida.

Os números estão disponíveis. O diagnóstico existe. As necessidades estão projetadas. O que falta é garantir que as medidas produzem resultados em quantidade suficiente e em tempo útil.

Porque há uma diferença entre anunciar que se está a combater a falta de professores e conseguir que, daqui a cinco ou oito anos, as escolas tenham os docentes de que precisam.

E quando um país sabe que poderá necessitar de cerca de 38 mil novos professores, mas as estimativas apontam para apenas 20 mil entradas na profissão, não estamos perante um pequeno desvio estatístico. Estamos perante um aviso que exige planeamento, decisões e responsabilidade.

A Educação não pode viver eternamente de soluções de recurso, nem os alunos podem ser tratados como variáveis de ajustamento de um sistema que só reage quando a falta de professores já chegou à sala de aula.

O problema não desaparece por ser incómodo. Não se resolve por ser repetidamente anunciado. E não se torna menos grave porque alguém prefere apresentar o número de professores colocados sem discutir quanto

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